10 de jun de 2013

Debaixo da ponte, um aluno nota 10 que sonha ser médico

José Luiz Moni, 15 anos, um estudante exemplar, espera se tornar doutor no futuro


Debaixo de uma ponte da BR-116 mora um menino que drena toda a sua força para os estudos na esperança de, futuramente, se formar doutor. Colecionador de notas 10, José Luiz Camboim Moni tem 15 anos, pouco menos de 1m70cm e se expressa melhor com um sorriso doce do que com as palavras. 

Tendo como teto o asfalto da rodovia que liga Porto Alegre ao Interior e rodeado pelas dificuldades de quem não tem um endereço formal com CEP e número de residência, José mora com a mãe, viúva, e dois irmãos.

Os obstáculos que encontra nos planos para se tornar médico, ele supera com criatividade. São muitos os exemplos. Sem pasta para carregar os livros, avistou nas últimas férias uma mochila boiando no Arroio Sapucaia. Recolheu, limpou e hoje a usa para ir à escola. Repetiu de ano apenas uma vez, aos sete anos, quando ingressou na Escola Estadual de Ensino Fundamental Ezequiel Nunes Filho, de Esteio. Foi justamente na época em que o pai morreu atropelado. O acidente coincidiu com o mesmo ponto da rodovia em que a família vive hoje — perto do km 259, em frente à empresa Refap. Depois da repetência, virou um aluno exemplar. Jamais deixou de entregar um trabalho. Em 2012, recebeu um certificado por estar entre os melhores alunos. 

São 10 minutos a pé que separam José da escola. Quando retorna para o lar, nem mexe nos cadernos. No barraco de piso vermelho, de terra úmida e luz fraca, precisaria dividir a atenção no conteúdo com o trepidar do asfalto sobre a sua cabeça e com o ranger dos trilhos do trem. Assim, adotou uma estratégia:

— Ele é o primeiro a entregar as tarefas e as realiza com ótimo desempenho. Como não tem um ambiente apropriado em casa para estudar, prefere fazer os temas na aula. Isso nos comove — revela Mart'Ana Silva Pereira de Melo, professora de língua portuguesa.

Sob a proteção da ponte, são os desenhos ou filmes no DVD que deixam José feliz. Foram estes momentos de lazer, assistindo a filmes de ação, aliás, que estimularam a imaginação do adolescente e fizeram brotar o desejo de salvar vidas.

— É o que eu gosto de fazer porque aqui não dá para fazer outra coisa. Se jogar bola, pode cair no arroio. Fico olhando os filmes, imaginando se um dia eu vou mesmo conseguir ser médico — argumenta José.

Estudante da 8ª série, preenche o dia com as idas constantes à biblioteca e ao laboratório de informática. Na internet, usa o buscador para executar os trabalhos e, sempre que dá, digita "corpo humano" em sites de busca e se diverte com os resultados sobre o tema que mais o atrai. 

— Ele se concentra nas atividades e é muito inteligente. Leva tudo a sério. A gente percebe que ele tem consciência de que é preciso se dedicar para haver uma mudança na vida — avalia a diretora da escola Cláudia Alves.

Mas ainda falta muito para que o futuro do menino se organize. Prestes a ingressar no Ensino Médio, José nem sabe bem o que é Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). De todas as formas que persegue o sonho da Medicina, para ele, a letra é o sinal mais claro.

— Já tenho letra de médico. Só eu me entendo — brinca José.
— Mas no meu tempo não era assim. Tu tinhas a letra bem caprichada, José — observou Márcia Porciuncula, a professora responsável pela alfabetização.

A mesma mulher que mostrou a ele o universo do saber, agora está mobilizando a comunidade em torno de uma causa. Em novembro, os colegas farão uma viagem para o Beto Carreiro. São oito parcelas de R$ 52 que serão custeadas pela comunidade escolar para que ele possa acompanhá-los. 

Será a primeira vez que o menino olhará o mundo que existe além de Esteio.
O trepidar dos pilares agora não assusta mais
A miséria não impede que José ande sempre no capricho: banho tomado, cabelo aparado, estômago cheio e roupas limpas. Sozinha, a mãe, Tatiana, 35 anos, cria o garoto e os irmãos Matheus, 13 anos, e Jorge,11 anos, e ainda auxilia a filha mais velha Jéssica, 19 anos, e o neto de três anos, que moram no mesmo terreno. 

Tatiana sustenta a casa como carroceira. Ou melhor, sustentava. É que no começo de maio, um carro bateu na traseira do veículo velho e desmontou-o. Enquanto aguarda o conserto, trabalha em um galpão de reciclagem e, por isto, recebe uns trocados, que dão para as três refeições diárias.

Depois que o marido morreu, pagar as contas ficou cada vez mais complicado, e a mulher que sempre teve teto, quarto, sala, banheiro e cozinha, achou a ponte até que bem aprazível quando ficou sem ter para onde ir. 

Chegou lá há oito meses. Levou tudo o que tinha na antiga moradia e mobiliou o espaço público. Foram dois meses até a família se acostumar com o trepidar dos pilares.

— Para dormir, só na base do remédio. Parecia que a qualquer momento um carro ia despencar nas nossas cabeças. Agora nem ligo mais — garante Tatiana.

Dá para contar nos dedos os poucos objetos que enfeitam paredes ou decoram ambientes: um relógio sem pilhas, um buda de porcelana, um ramalhete de chá de marcela, algumas fotos nas paredes do quarto e cartas que ganhou dos filhos.

Às 20h fecha as portas da casa — que de fora, se assemelha a uma caverna —, acomoda as crianças. Antes de dormir, retira a Bíblia do criado mudo ao lado da cama e lê até adormecer. O mantra em suas preces é sempre o mesmo: que todos os filhos encontrem o caminho do bem. Sobre os planos para o futuro, fora o de ter um médico na família, nenhum outro. Ainda não sabe se vai conseguir sair dali tão cedo, mas tem fé.

— Não há mal que dure para sempre, tu não acha? _ pergunta para a repórter.
A mesma mulher que mostrou a ele o universo do saber, a professora Márcia Porciuncula, agora está mobilizando a comunidade para custear uma viagem com a turma ao Beto Carreiro.
Foto: Tadeu Vilani/Agencia RBS